Sou organizado, arquivo minhas dores. Já arquivei muitas. Uma vez por outra, desarquivo uma . Algumas permanecem arquivadas exclusivamente porque já foram dores e, dores são dores, tenho-lhes o devido respeito. Tenho algumas que nem toco,
tenho pavôr de estragá-las. Deixo-as como estavam no dia em que as arquivei, intactas. Tenho muitas dores arruaceiras, escandalosas, dessas que a gente morre de vergonha quando
aparecem. Mas é evidente que tenho outras, completamente diferentes, caladas. Dessas não gosto . Algumas são delicadíssimas, a dor do primeiro amor desfeito, é um bom exemplo.. Tenho uma dor bem interessante, eu diria até que, inusitada, uma dor desafinada. Ora, porquê a surpresa? Paixão solitária dá nisso, impossível harmonizar.. Sem qualquer constrangimento, confesso: tenho uma dor...brega. Isso mesmo. E quem não tem pelo menos uma? A minha dor de cotovelo está na terceira gaveta, já esteve mais acessível mas ainda está lá. É bem grande esse meu arquivo. Tenho até dor em ordem alfabética. É um arquivo, organizado. Quer dizer, mais ou menos. É que tenho uma dor instável. Já tentei fazê-la desaparecer, mas é voluntariosa, tem vida própria . Uma vez rasguei-a em pedacinhos, adiantou? Não! Mal abri a primeira gaveta, lá estava ela, multiplicada. Arquiva-se e desarquiva-se, c omo e quando quer ,e mais, mistura-se com as outras. Apareceu de tanto eu abrir e fechar a gaveta. Difícil lidar com ela. Desisti.
No entanto, e como hoje é Sexta-feira e o fim de semana
está aí...
não esqueçam...
tomem alguns analgésicos para as dores e...
FAÇAM O FAVOR DE SEREM FELIZES !
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